Uma Segunda Chance

Quando você é aprovado em um intercâmbio de trabalho, você consegue imaginar uma infinidade de possibilidades. No caso do Cultural Exchange Program (também referido como ICP), da Disney, em Orlando, você pode vislumbrar diversas opções.

Trabalhar em brinquedos, shows, restaurantes, hotéis ou até mesmo ser o próprio Mickey. O que você menos espera é que serão meses difíceis, exercendo uma função que requer muito trabalho braçal e que te limita a um pequeno espaço sem interações. A verdade é que tudo pode acontecer.

Esse foi o caso de Mayara Hencklein. Nascida em Araras e formada em Administração pela USP Ribeirão, ela foi contratada para trabalhar de novembro de 2016 a fevereiro de 2017, mas antes se aplicou em aulas de inglês após descobrir a existência do programa ainda em 2014.

“Fiquei muito emocionada e feliz. Minha função era a de quick service (trabalhar em restaurante), e nem por um segundo eu pensei em recusar a proposta. Mas talvez deveria ter pensado um pouco mais antes de colocar quick como segunda opção”, explica Mayara. Há a possibilidade de escolher suas preferências na segunda fase do processo seletivo e nem sempre a sua prioridade é atendida.

Pronta para realizar o seu sonho e cheia de planos, ela faria sua primeiríssima viagem ao Walt Disney World já como parte da magia e do elenco, uma Cast Member. Ela trabalharia no ABC Comissary, um dos restaurantes de alimentação fast food mais movimentados do Hollywood Studios, um dos parques temáticos.

No entanto, por ser tímida, logo se sentiu um pouco solitária por ter que dividir o apartamento apenas com estrangeiras. Durante os treinamentos, teve uma mistura de emoções com suas primeiras impressões do local.

“Primeiro pensei, que roupa feia, quero trabalhar de vestido fofo no Magic Kingdom. Depois imaginei, nossa, esse trabalho é muito pesado, e me questionei o que eu estava fazendo aqui. Daí pensei, calma, são só dois meses, logo acaba”.

Apesar do trabalho árduo e horas pesadas, Mayara mantinha o sorriso no rosto pelo ABC Comissary

Sua rotina de trabalho exigia uma capacidade extremamente física e, como se isso não fosse o suficiente, o seu restaurante tinha todos os tipos de problemas.

Segundo Mayara, ninguém gostava de trabalhar no ABC. Seus líderes eram ruins, as horas eram abusivas, com uma pausa para almoço apenas após mais de seis ou sete horas de trabalho sem parar.

Seus turnos de trabalho duravam de 10 a 12 horas por dia, seis vezes por semana. O que a restava era sorrir e cuidar do trabalho pesado, como fritar batatas e nuggets, o que era um terror para ela.

“O que salvou meu ICP foram as amizades, principalmente as do trabalho. A gente dava apoio um ao outro, se divertia, se ajudava. As coisas vão gradualmente melhorando, você vai pegando a manha do trabalho, começa a se acostumar e aí o trabalho acaba e você está voltando para casa”.

Aproveitando os parques em seus poucos tempos livres, Mayara se apoiou em seus amigos para ver o lado bom dos meses que passou por lá. Apesar de sua árdua função, ela não sofreu nenhuma queimadura devido ao trabalho.

De volta ao Brasil, ela se permitiu sonhar de novo com uma nova oportunidade em Orlando. Talvez uma segunda chance.

“Eu queria muito viver aquilo que eu tinha sonhado mesmo, sabe? O que eu merecia viver”

10 meses após retornar de sua primeira experiência na Disney, Mayara recebe a tão sonhada segunda chance. A aprovação no International Park Greeter (também conhecido como PG), veio em dezembro.

A oportunidade de representar o Brasil no exterior, de se tornar um Super Greeter foi a redenção para a administradora. Foram seis meses de espera e de muita ansiedade para retornar à sua segunda casa.

O regresso ao parque ou hotel do último programa não é garantido, mas seu desejo foi atendido. O PG é um trabalho que dá muito mais liberdade ao cast member, que fica encarregado de auxiliar, acima de tudo, os grupos de estudantes que vêm por meio de agências dos países da América Latina, sobretudo Brasil e Argentina.

No total, eram 16 brasileiros park greeters, número expressivo para dar suporte em uma inédita área do parque que seria inaugurada durante o programa, a Toy Story Land. O Hollywood Studios a aguardava de braços abertos.

Disney a chamou de volta para se tornar uma Super Greeter e representar o Brasil no Hollywood Studios

“Fui muito mais feliz. O trabalho me possibilitou ser tudo o que eu queria. Trabalhar no Fantasmic e cantar, dançar muito, trabalhar na Tower of Terror, auxiliar na tradução ao espanhol e ao português como se eu trabalhasse ali, rodar o parque todo, conversar com todo mundo, usar a luva do Mickey”, conta Mayara, em êxtase ao sentir-se livre dos perrengues vividos em seu primeiro programa.

“Foi o trabalho dos sonhos e nem o calor atrapalhou”, ela completa. E olha que o calor 40 graus, intenso e úmido do verão do centro da Flórida não é para qualquer um!

Ela comenta que, desta vez, pode morar com amigas brasileiras, teve bem mais flexibilidade em seus horários de trabalho semanais, recebeu um maior número de dias de folga e menores turnos diários, ou seja, mais tempo livre e menos estresses desnecessários.

Mayara inclusive trabalhou com o wookie mais famoso da galáxia, Chewbacca, de Star Wars

“Eu não parava um segundo no apartamento, começava a me dar nervoso se eu estivesse em casa em um horário que não fosse noite para dormir. Comi em todo restaurante que quis, tive o melhor aniversário da vida. Foi tudo perfeito, um milhão de vezes melhor que a primeira vez”, ela afirma com toda a certeza do mundo, expressando muita gratidão e saudade do programa de intercâmbio mais incrível que ela havia sonhado.

Mayara é uma prova de superação que devemos enfrentar ao nos aventurarmos por conta própria em um país estrangeiro, prontos para trabalhar duro, não importa o que nos for pedido.

Perguntada se ela considera a Disney uma segunda casa, ela não poupa palavras para explicar como as experiências serviram como um marco em sua vida.

“Existe uma Mayara pós-Disney que mudou muito de três anos para cá. Em dois intercâmbios, eu cresci como pessoa, tive minhas capacidades testadas, conheci muita gente, aprendi muita coisa. Lá é o lugar de tantas memórias boas que eu tenho, onde eu me sinto segura e genuinamente feliz e, por isso, sempre será minha segunda casa. Home away from home (casa longe de casa)”.

Do interior de São Paulo para o mundo, Mayara experienciou os dois lados da moeda e se tornou outra pessoa no processo

 

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